No tempo em que eu queria ser adulta

Onde aperta pra voltar os anos dourados do meu pai? Onde aperta pra voltar minha mãe desembaraçando meus cabelos?

Quem já conversou comigo um bom quarto de hora ou leu uns textos aqui do blog pode ter percebido que tive que virar adulta bem cedo. Para saber mais sobre isso pode comentar lá embaixo que eu respondo.

Quando eu não sabia o tamanho da marimba achava ótimo, achava lindo. “Nossa que adulta que eu já estou com 15 anos.” E nas horas vagas brincava de Barbie. Nessa idade eu ainda fazia coleções inteiras de roupa pra minha boneca de nome Bia. Bem madura. Ou não.

O fato é que hoje não tem mais tempo pra brincadeira e nem pra se esconder das responsabilidades. Não que seja do meu feitio, pelo menos eu não me considerava relapsa ou escorregadia até ter que precisar cuidar to-tal-men-te do meu pai. Antes, ele ajudava bastante na tarefa de se cuidar e cuidava de mim também que sou carente num grau elevadíssimo.

Mês passado ele completou 89 anos e uma virose veio como presente inconveniente uns três dias depois. Eu mantive a calma e segurei a barra de uma maneira que orgulharia o Luís Carlos do Raça Negra. Teve hospital, teve várias coisas que não valem a pena detalhar. Basta dizer que não foi fácil. Não está sendo.

Com a chegada da melhora, apareceu também a percepção que eu vinha evitando – ou tentando evitar – nos últimos anos. A lucidez dele não era mais a mesma. E isso me quebrou mais que a virose que eu também peguei na semana seguinte.

Logo ele que sustentou essa lucidez por mais de sei lá quantas décadas. Que resolvia coisas dele que eu deveria estar resolvendo já, mas ficava orgulhosa de dizer pra quem perguntasse: “meu pai ainda resolve isso e aquilo, ele é muito independente.”

A realidade empurrou o pé na porta e me disse: chega. Pode parar de protelar essa responsabilidade que está se derramando na sua porta, na sua mesa, na sua consciência. SEJA ADULTA ~MESMO~ AGORA. Resolva tudo. Assuma o controle e pare de se fazer de coitadinha. Essa fase terminou, talvez ela só tenha existido na sua cabeça.

No meu Facebook eu costumo publicar os diálogos que a gente produz vez ou outra. Meu pai é um homem bastante espirituoso, apesar da vida sofrida não perdeu o bom humor. Apenas uma das coisas que me fazem amá-lo.

Os “Diálogos galhofeiros com o papis” tiveram uma edição não tão galhofeira assim hoje. Foi mais um VRA na minha cara sem aviso prévio.

👸 Tá fazendo o que aí, pai?
👨Nada, minha fia. Só dando uma caminhadinha pela casa.
👸Que bom.
(Ele chega perto e eu aproveito para roubar um abraço)
👨Minha fia é a dona da casa, né?
👸(Eu só consegui sussurrar um uhum sufocado de choro que não queria que ele percebesse. Não percebeu.)

Esse momento foi mais uma definição desse dia que me revelou em vários outros instantes que a hora já chegou. Eu sou a dona da casa. Nem sei se que queria ser. Não agora. Eu queria mesmo é que ele fosse uns 30 anos mais novo. Que minha mãe estivesse aqui. E que a gente pudesse conviver numa leveza igual a da noite em que ela chegou do Pará. Nós três relembrando histórias antigas e rindo pela simples felicidade de estarmos reunidos.

Essas lembranças vão me ajudar, espero. Sei também que já sou adulta faz tempo. Os boletos chegam. As dores também. E nas madrugadas também chega a voz dele chamando meu nome ou qualquer outro nome que ele conseguir lembrar.

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