No tempo em que eu não tinha força

Sempre me considerei muito frágil quando o assunto era lidar com enfermidades da minha família.
Não consigo ver um gato sendo maltratado que dirá uma pessoa que amo sofrer por qualquer que seja a doença.
Não sei se as fraquezas surgiram das circunstâncias em que vivi, já que fui criada em uma casa com idosos e via diversas vezes cenas com gente sendo cuidada e crises de saúde eventuais. Talvez por isso tenha desenvolvido uma relação difícil com a necessidade de estar forte para dar força a alguém. Eu era convicta de que isso não existia em mim. Até que meus pais tiveram câncer. 

Primeiro foi meu pai. Nos seus exames de rotina descobriu um câncer na próstata em sua fase inicial. Fez radioterapia durante um tempo e se curou.
Foi difícil sim. Um diagnóstico como esse sempre é, não importa a gravidade. Entretanto, eu nem vi a cara do câncer.
Foi imperceptível pra mim, mas endureci a casca com aquela situação. E com muitas outras de lá pra cá.
Mais de 10 anos se passaram e o câncer atingiu a pessoa mais frágil da minha família: minha mãe. Dessa vez, ele se apresentou de fato.
Frágil fisicamente com seu biotipo magrinho e feições delicadas. Frágil psicologicamente com tanto sofrimento acumulado em seus poucos 52 anos de vida.
Todo mundo sabe que essa doença fica mais forte se não há perseverança, alegria, esperança… E foi aí que eu entrei.
Eu que tenho tendências melancólicas, depressivas até, tive que retirar força de não sei onde pra repassar a ela. Para fazer ela querer viver, lutar bravamente contra os sintomas e todo o resto.
Enquanto eu segurava a mão dela durante as crises de dor insuportável, precisava resolver os trâmites do tratamento. Eu pensei que não ia conseguir, mas tive êxito. Fiz tudo que estava ao meu alcance. Tudo mesmo.
Infelizmente ela não conseguiu. :/ E não foi por falta de luta. Ela era brava. Quem teve a oportunidade de conhecer a minha mãe, sabe como ela brigou a vida inteira com a vida pra conseguir o que queria.
Nesse momento eu só espero que ela tenha sido feliz em alguns desses momentos. Provavelmente durante o meu nascimento e dos meus irmãos. Nunca imaginei que não teria tempo para perguntar:

____ Mãe, você foi feliz?

Nem era pertinente perguntar mesmo. Que egoísmo o meu querer dormir tranquila depois de saber essa informação. Mas, eu desejo de verdade que ela tenha sido feliz. Que tenha valido a pena.
Me doi bastante não termos vencido essa luta. Me doi bastante ela não ter podido realizar todos os sonhos que ainda tinha. Mas, Deus sabe o que faz. Ela estava muito debilitada. Não seria fácil pra ela continuar se jogando contra a parede de concreto que essa doença representa. Os hematomas que ela levou quando se foi eram completamente desproporcionais ao tempo do diagnóstico. Em um mês ela sofreu o equivalente a 6 ou 7. Não tenho como precisar.
Quero me lembrar da minha mãe feliz. Das coisas que mesmo de longe ela conseguiu me ensinar. Das coisas dela que herdei. Dos gatos que a gente ama. Da sua admiração pelo Roberto Carlos. Da sua fé em tempos melhores.
A minha percepção de tudo que aconteceu ainda está embaçada. Não sei se a força que eu acho que tenho ainda vai persistir. O que sei é que estou sentindo algo muito ruim e que não vejo a hora de passar. Ela está melhor agora. Parou de sofrer. Ganhou a misericórdia que suplicamos juntas a Deus nas suas horas de dor.

Anúncios

6 comentários em “No tempo em que eu não tinha força

  1. Parafraseando Cazuza “Só as mães são felizes” pois elas tem a capacidade de renascer em seus filhos. Seja forte e mentalize que foi melhor assim, pois não há mais dor física e agora ela está em paz. Beijos minha querida!

  2. É difícil. É difícil esse desprendimento dos que amamos na hora da partida deles. É difícil lembrarmos que nossa missão na terra tem hora pra acabar. Essa doença também é presente na minha família hoje e eu sei o que você passou. Mas temos que tentar pensar no bem que essas pessoas nos fizeram aqui e que é hora do seu descanso, do seu momento de refletir sobre a vida que teve aqui. É como férias. Mais na frente, todos nós nos encontramos num grande abraço.
    Ore por ela e lembre-se dela sempre com alegria. Ela vai gostar.
    Beijo!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s