No tempo em que eu era dependente

 

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A primeira vez que me deparei com a palavra dependente foi na infância. Ouvi numa conversa de adultos, meu pai se referindo a mim como dependente dele. Fiquei com aquilo na cabeça por dias, como sempre acontecia – e ainda acontece – quando algum assunto me intriga(va).
Só muito tempo depois fui entender o real significado. Especificamente no momento em que me vi frente a frente com o juiz que decidiria se eu iria permanecer dependente – sob guarda – ou passaria a ser filha legítima – adotada.
Chega de falar de mim. Vamos ao real motivo desse texto: meu pai. Nunca quis acreditar que esse momento chegaria, mas chegou. Trocamos de lugar na relação de dependência.
Sempre enxerguei o daddy como alguém muito forte e corajoso. Pois, foi assim que ele sempre fez questão de se colocar. Filho mais velho de uma família de doze irmãos (cinco já falecidos), seu Antonio é o tipo de pessoa que chama a responsabilidade pra si. Exatamente por isso sempre foi muito requisitado para resolver qualquer problema que acontecesse na família. Carinhoso e severo ao mesmo tempo. Uma joia rara. Só se casou aos 32 anos numa época em que os casamentos aconteciam bem cedo, de preferência no início da casa dos 20.
Quando eu cheguei na residência dos Oliveira, ele já era um senhor de mais de 60 anos, com filho adulto e esposa em tratamento de saúde. Eu, recém-nascida, fui motivo de alegria como qualquer bebê seria. Entretanto, pouco tempo depois a tristeza tomou conta da casa em razão do falecimento de sua esposa. Foi a partir daí que virei dependente e continuei sendo por um bom tempo… Até agora.
Só pra citar um exemplo, atualmente eu assumi o papel de abrir as embalagens da casa. Pode parecer uma coisa sem importância, mas na verdade é bem significativo. Cada pequena coisa que se modifica causa uma grande reação em nós. Mais nele do que em mim.
Sendo a pessoa tão ativa que sempre foi, meu velho pai não admite ter que deixar de fazer tantas coisas que antes eram rotineiras. Até um tempo desses ele mesmo subia na casa para retirar goteiras e aproveitava pra fazer a limpa na nossa laranjeira – inclusive nos galhos mais afastados do tronco.
A impossibilidade de fazer esse tipo de coisa tem entristecido meu painho. E a mim também, consequentemente. Quem já leu meia dúzia de textos por aqui já deve ter percebido uma leve tendência minha pra melancolia. Estou tendo que enxotar essa tendência com todas as minhas forças. Alguém precisa ser positivo por aqui. E esse alguém SOY YO mesmo. Não tem escapatória.
Toda essa revolução na vida se intensificou bastante nos últimos meses. Não que eu fosse dependente dele tanto assim. Na verdade, minha independência sempre foi um traço bastante característico em mim desde bem cedo. O que mais me incomoda é o fato de ele ficar cada vez mais dependente dia após dia. Obviamente que eu já me preparo para o inevitável desse envelhecimento desde… sempre. Afinal, já cresci e me entendi por gente com meu pai na terceira idade.
Meu maior medo é que ele entre numa depressão ferrada por falta de atividade. Por eu não poder estar sempre ao lado dele. Vou tentando como posso tornar a vida dele mais confortável. Menos penosa com as dores que são comuns na idade e principalmente com a solidão.
Ninguém disse que seria tão tão tão tão difícil. Mas, é isso. Deixa eu vestir a independência como nunca, né. Colar na armadura pra ver se ganho a fortaleza por osmose. Pra encerrar sem chororô, segue um clipe que define bem a nossa história. Tirando a parte do baby que num quero outro dependente tão cedo. Hahahaha!

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