No tempo que eu tinha cabelo alisado

Era muito ruim. Não vou mentir pra vocês.
Nunca me dei bem com a dinâmica alisa-retoca raiz-faz escova-faz chapinha-evita umidade pra não desmanchar. E desmanchava muito rápido. No meio do processo de fazer escova já estava cacheando. Meu cabelo resistia muito, amigos. Tentava incessantemente me dizer que ele tinha vida. E que eu precisava parar de matá-lo.

Entrei na onda dos alisamentos ainda criança quando a galera da minha rua aderiu em massa ao processo. Eu achava meu cabelo bonito, mas não sabia como cuidar dele, como deixá-lo mais bonito naturalmente.
Minha mãe fez protestos e não queria que eu fizesse química. Esperei ela se afastar e pá! Alisei.
Não fez o efeito desejado. Eu não sabia cuidar do cabelo natural, ia saber tratar de cabelo alisado? Não mesmo.
Continuei escondendo meus fios em penteados, tranças e afins. Mais ou menos ao treze anos comecei a soltar. Dedicar um pouquinho mais de tempo pros cachos. O resultado foi visível e elogiável. Entretanto, perdi a paciência. E por qual motivo? Por não ter força pra ignorar os comentários sempre frequentes sobre relaxamento e volume que precisava ser domado.

O QUE PRECISAVA SER DOMADO ERA A FALTA DE BOM SENSO DESSAS PESSOAS

Gente, pelo amor de Deus. Que coisa mais chata. Nem todo mundo precisa ter o cabelo lambido pra ser feliz. Pra ter sucesso. Pra qualquer coisa que seja na vida. NADA CONTRA os lisos. Acho cabelo liso muito lindo MESMO. Mas, meu cabelo nunca vai SER liso. Ele pode ESTAR liso, por um momento. Eu demorei pra me conscientizar disso. Por mais que os produtos atuem com força e detonem a raiz crespa do meu fio, ela ainda estará lá. Eu querendo ou não.
Continuei nessa luta inútil por muitos anos ainda. Me chateava pela pouca duração das escovas. Queria ter praticidade como as outras pessoas. Não considerava a beleza do meu cacho por si só. Maior erro da vida.
Essa negação do que eu SOU foi enchendo meu saco de verdade. A gota d’água aconteceu na minha formatura em Publicidade (2011).
Cometi o desatino de procurar uma profissional que não conhecia, justamente no dia da primeira solenidade. O relaxamento, ou sei lá que nome idiota tinha naquela época, não foi feito como deveria. Não pegou, como dizem. Só descobri isso depois que ela terminou a escova e eu estava atrasada – só pra variar. Saí correndo pra faculdade onde teríamos o descerramento da placa e ao chegar lá meu cabelo já estava armado. Sem forma. Pelo simples motivo de que eu o tinha matado. Por livre e espontânea vontade.
Ficou tão ruim que eu não quis nem pegar as fotos das solenidades depois. Juntou com o bagulho da obesidade e pronto. Não era eu ali. Era alguém que não se amava de jeito nenhum e que não tinha controle da sua própria imagem.

transição

A foto com babyliss é de 2012. Eu já estava no meio da transição capilar de volta aos cachos. A outra imagem é de 2015. Cachos totalmente recuperados e saudáveis. Podem dizer o que quiserem, prefiro minha versão cacheada. E ainda tem uma ironia maior. Na época da transição capilar eu aprendi a fazer babyliss. Meu cabelo sem forma tava horrível e só tinha uma coisa que deixava ele bonito: cachos. Só que com o tempo nem o babyliss resolvia mais. Então decidi radicalizar.

cabelo sem forma
cabelo sem forma
cabelo com tranças feat. Max Fercondini
cabelo com tranças feat. Max Fercondini
passando a tesoura

No chão da foto acima é super perceptível como meu cabelo tava lascado. Uma parte lisa, outra parte ‘tentando’ cachear.
Foi meio chocante para muitas pessoas. Meu pai ficou horrorizado.
A partir do momento que tomei a decisão de cortar já sabia que isso aconteceria. Então, me preparei pras críticas. Sobretudo, para ignorá-las solenemente. Ou agradecer gentilmente as sugestões de como lidar com uma coisa que é só minha e que ninguém se afeta por estar comprido, curto, liso, cacheado, cagado ou careca. O CABELO É MEU. Entendam de uma vez por todas. Esse pensamento ficou comigo e não me importei com mais nada. Apenas com meu bem estar diante do espelho. Somente isso.
Até agora, tem sido a melhor decisão que já tomei em relação à minha imagem. Tive apoio de algumas pessoas também é importante ressaltar. Um beijo pra minha consultora para assuntos capilares Gracilene dos Santos.  :*
Não dá pra ficar se torturando psicologicamente, fisicamente e principalmente financeiramente, por causa de uma imposição idiota de que você PRECISA SER ASSIM, TER CABELO ASSIM e SE VESTIR ASSADO. Assumir meu cabelo e amá-lo como ele é provavelmente foi a coisa mais política que já fiz. Gostaria que outras pessoas se identificassem e fizessem o mesmo, mas não vou impor essa decisão a ninguém. Cada um sabe a sua hora e sua real necessidade.
Deixo meu apoio às pessoas que já fizeram e também links bem legais pra manter a vida na vibe natural:

http://nobrasil.co/sao-paulo-recebe-1a-marcha-dos-cabelos-crespos/

http://cabelobomsimsenhor.com/

http://cacheia.com/

E pra quem achou meu texto uma grande bobagem e mimimi de quem não tem o que fazer, dá uma checada nesse álbum aqui:

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