No tempo em eu não ia em velórios

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Sou uma criatura muito sensível quando o assunto é morte.

Sempre fui muito impressionável e influenciada por uma visão extremamente negativa deste momento que aliás é muito difundida por nossa cultura.

Tive uns funerais marcantes que aumentaram sobremaneira o mal-estar que me acomete em meio ao óbito. Não sei se vou conseguir colocar na ordem cronológica, mas sem dúvida eles serão listados na ordem de significância.

Primeiramente aconteceu o funeral da minha mãe adotiva que faleceu quando eu tinha 4 anos. Lembro pouco das circunstâncias, mas em compensação tenho outras lembranças que permanecem vivas, como o fato de eu não querer tirar foto ao lado do caixão. Pensando bem, não consigo ver conexão lógica no fato de registrar isso em foto. Na época, estava com medo mesmo. Provavelmente incitado por outras pessoas.

Depois foi uma vizinha que fez uma cirurgia na cabeça e acabou não resistindo. Eu ficava lembrando das vestimentas da jovem em seu velório. Ela estava com um chapéu delicado e lilás. O mesmo tom da roupa. Passei dias pensativa com a história.

Quando um primo meu faleceu de pneumonia ainda criança também foi chocante pra mim. Acho que nunca tinha ido a um velório de criança. A urna funerária na cor branca ficou marcada na memória. Lembro da minha mãe me levar até lá e na volta eu ficar pensando obsessivamente como podia uma criança morrer daquele jeito. Eu olhava pra cidade pela janela do ônibus e essa questão não saía da minha cabeça.

As celebridades também capturavam a minha atenção. O Senna foi emblemático. Gostava por demais de vê-lo correr e vi tudo ao vivo naquele fatídico dia 1º de maio de 1994. Em 1998, a morte de Leandro, da dupla Leandro e Leonardo, foi muito triste pra mim. Ele fez parte da minha infância e eu lembro de estar torcendo firmemente pela sua recuperação que infelizmente não aconteceu. Muitos outros vieram e não vou lembrar todos enquanto escrevo este texto.

Mais localmente uma partida que me comoveu foi a da deputada Francisca Trindade que sofreu um AVC (se não me engano) enquanto falava no plenário de algum lugar que não me recordarei e não quero googlar. Só o fato de pesquisar essas coisas produz em mim [e acho que em qualquer um] uma sensação de desconforto. É muito difícil lidar com tuuuudo isso. Estamos acostumados a ganhar tanto da vida e de repente, pá. Ela nos leva alguém querido.

Neste fim de semana participei de um velório como há muito não participava. Um tio querido faleceu e precisei estar presente desde a escolha do caixão até o sepultamento. Triste momento, sem dúvida nenhuma. Mas, que me revelou uma evolução de mim para mim mesma. Aparentemente já consigo lidar melhor com a ocasião e ser mais resistente ao momento.

É extremamente cansativo. Porém, necessário. Não dá para fugir do ritual. Cada velório que se vai me parece uma maneira de tentar encarar o luto com mais serenidade e menos tristeza guardadas as devidas proporções. É aquele momento em que todos se reúnem. É nessa hora que temos a certeza que ninguém é diferente de ninguém. O nosso destino é compartilhado desde sempre.

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2 comentários em “No tempo em eu não ia em velórios

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