No tempo em que os morros uivavam

O Morro dos Ventos Uivantes é uma obra que está no meu inconsciente desde sempre. Desde… não me lembro quando… que ouço falar dessa história, bem como o Apanhador no Campo de Centeio (J. D. Salinger) e As aventuras de Huckleberry Finn (Mark Twain).
No ano passado adquiri um exemplar de “O Morro” da autora Emily Brontë e só agora investi na leitura.
Não fiz nenhuma pesquisa antes. Geralmente faço uma pesquisa mais profunda quando não conheço o autor, mas dessa vez não a fiz. A única informação que eu guardava no meu imaginário era a existência de um romance entre Cathy e Heathcliff. Somente.
Entrei no livro com essa expectativa. E a capa da edição que eu comprei continuava a me dizer isso.

morrodosventos

Por esse lado me decepcionei. Esperava paixão, emoção e final feliz. E o que encontrei? Paixão, emoção e um final muito infeliz.
Fãs acalmem-se. Não estou falando mal da autora. Muito pelo contrário. A obra é uma narrativa brilhantemente construída e Emily sabe como nenhum outro autor que eu já tenha lido imprimir uma atmosfera macabra em alguns momentos do livro. O fato é que eu deveria ter feito a tal pesquisa, o que me levaria a adiar a leitura mais um pouco. Já que naquele momento procurava algo menos denso para me entreter.
O enredo é complexo. Se o leitor não estiver focado pode se perder diversas vezes nas confusões que a autora orquestrou, e, se confundir com as Catarinas que ela apresenta.
O início mostra Catarina Earnshaw uma mocinha impertinente que leva a vida alegremente ao lado do irmão Hindley, tendo todas as suas vontades realizadas pelo pai. Este mesmo pai viaja e traz consigo um órfão sem nome o qual a família começa a chamar Heathcliff. O patriarca Earnshaw se apega bastante ao menino, enquanto seus voluntariosos filhos passam a hostilizá-lo por ciúme. Resultado: Heathcliff se torna também hostil e revoltado. O único sentimento positivo que cultiva dentro de si é o amor por Catarina que por sua vez corresponde  a amizade dele apesar de não ser “apropriado” para uma moçoila da sociedade andar por aí com um selvagem.
Mesmo sendo mútuos em suas afeições, a jovem prefere casar-se com Edgar Linton por pura convenção social. Despertando dessa maneira um sentimento de vingança em Heathcliff que  já não estava lá muito satisfeito pelas humilhações que vinha sofrendo desde que o casal Earnshaw morreu. O irmão de Catarina, Hindley Earnshaw, aproveitou para descontar as supostas ofensas que tinha sofrido desde a chegada do órfão.
Catarina continuava mantendo um casamento que não a fazia plenamente feliz e Heathcliff arquitetava sua vingança de longe. Após anos de distância, ele retorna e casa-se com a cunhada de Catarina: Isabella Linton. Eles geram um menino de nome Linton. Daí em diante só acontecem coisas ruins. A esposa de Hindley morre e ele não cuida do filho Hareton como deveria, depois morre Catarina, depois Hindley, depois Isabella, depois Linton, depois o próprio Heathcliff…
Eu sei. É muita morte. Em alguns momentos a gente pensa estar lendo uma tragédia grega, em outros uma história de fantasmas (Heathcliff diz estar vendo o fantasma de Catarina Earnshaw e morre louco com essa proposição).
No final, antes de sua própria morte, Heathcliff até ensaia uma continuação de sua vingança na segunda geração das famílias Earnshaw e Linton: obriga a jovem Catarina Linton, filha de Catarina Earnshaw e Edgar Linton, a casar-se com seu filho Linton. No entanto, após a morte do rapaz, ele percebe que Hareton (tão revoltado e introspectivo quanto ele fora na juventude) cultivava por Catarina um amor muito parecido com o que ele nutriu e não conseguiu viver no seu passado.
Heathcliff morre e pede para ser enterrado ao lado de Catarina Earnshaw. O que ficou simbolizado como um triângulo amoroso da eternidade para mim, já que do outro lado da sepultura dela se encontrava a cova do marido.
Diziam os populares que o casal que não viveu o amor em vida, vagava junto nas terras onde moraram.

Sinistro, né?
Demais.

Algumas coisas me chamaram bastante atenção na obra:

  • Helena Dean –  a criada que sabe de tudo que acontece na história da família. Emily utilizou a figura de Nelly (Helena) para ser a base da narrativa. E algumas das decisões tomadas por ela definiram a trajetória dos personagens principais. Da história como um todo. Gostei desse destaque que a personagem recebeu. Talvez tenha sido a primeira vez que uma dama de companhia tenha sido mostrada com a relevância que ela exerce na casa de uma família como os Earnshaw;
  • A questão da adoção – criou-se uma ideia  de que Heathcliff era ruim porque era adotado. E a partir daí, deve ter se sustentado essa crença estapafúrdia de que, não importa se a criança for educada por outra família, se ela tiver parentes com desvios de comportamento, obrigatoriamente ela vai reproduzir esse comportamento. Uma crença absurda que deve ter impedido milhares de crianças mais crescidas de terem uma nova família na Inglaterra e no resto do mundo também. Talvez a autora só estivesse reproduzindo, ironicamente, uma crença que já era difundida antes mesmo de ela ter essa consciência. Ou talvez fosse uma crítica a essa crença. Ainda não fiz uma pesquisa mais profunda. E digo mais, não entendo de psicologia nem de sociologia, muito menos de biologia, mas acho que não existem regras para isso. A probabilidade de uma criança crescer e se comportar mal, é a mesma de ela crescer e se comportar bem. Cada um é cada um;
  • A melancolia de Emily – O Morro dos Ventos Uivantes foi a única publicação da autora que morreu bem jovem. Fico me perguntando onde será que ela arranjou tanta tristeza genuína para construir uma obra tão densa e cheia de particularidades no que diz respeito à melancolia. Lendo um pouco da biografia contida na minha edição descobri que ela era introspectiva ao extremo e que não falava muito. Dentre outras coisas sobre sua trajetória de vida. Deve ser por aí. Ela era muito boa em escrever e conseguiu transpor tudo o que sentia e a maneira como enxergava o mundo em um único livro.

No balanço geral o livro é excelente. Mas tenha a preocupação de que é exatamente esse tipo de leitura que você está buscando quando decidir ler O Morro dos Ventos Uivantes.

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