No tempo em que eu não entendia Dom Casmurro

A primeira vez que li Dom Casmurro tinha treze anos.

Eu já era feminista (acho que desde sempre) e sem nenhum fanatismo acreditei na culpa de Capitu. Contrariando todos os prognósticos e seguindo a lógica do senso comum.
Não era a primeira vez que eu ouvia falar do livro. Li sobre ele em outro livro – O Bom Ladrão de Fernando Sabino – e fiquei curiosíssima pra saber que tal enigma de Capitu era esse.
Li, e, a pedido de minha professora de Língua Portuguesa escrevi uma adaptação teatral da obra. #queousadia
A única exigência da professora foi que nessa peça acontecesse o julgamento de Capitu. Então segui essa linha e fiz a tal dramatização com direito a tribunal e tudo. Eu fui a advogada de acusação e os personagens principais foram convocados para depor.
O veredicto foi decidido pela plateia. Nas duas apresentações que fizemos, Capitu foi condenada em uma e absolvida em outra. Me indignei na época. Para mim ela era culpada e ponto.
Só hoje, milhares de anos depois, entendi que a nossa plateia estava coberta de razão. A dúvida é o melhor de Dom Casmurro. Para isso ele foi escrito. O grande Machado de Assis queria nos mostrar como a mente humana pode ser dúbia. Como Bentinho sofria de bipolaridade, antes mesmo do termo bipolaridade ser inventado.
Continuei lendo Dom Casmurro ao longo dos anos – definitivamente esse é o livro da minha vida – e o meu trabalho de conclusão de curso tratou indiretamente sobre ele. Nas minhas pesquisas descobri bastante coisa:

  • que Machado era muito amigo de José de Alencar assim como Escobar de Bentinho
  • que o casamento de Machado e Carolina foi muito feliz, mas eles não tiveram filhos
  • que a mulher de Alencar (Georgiana) era a Capitu em pessoa, tanto de corpo como de alma
  • que um dos filhos de Alencar tinha uma relação paterna com Machado e estreitou os laços com ele, sobretudo após a morte do pai

Essas informações biográficas só adicionam um elemento a mais na obra Machadiana. Nada foi provado e o DNA nem era usado, mas o fato é que Machado pode ter sido o Escobar na vida de Alencar.
Já Bentinho aparentemente é um lunático. Talvez não totalmente louco, mas com uma pertubação evidente.

Sigam meu raciocínio:

O cara perdeu o pai. A mãe não consegue cortar o cordão umbilical. Ele tem várias neuras e não confia no próprio taco. Aí aparece “a mulher”. Capitu é areia demais pro caminhãozinho dele e ele sabe disso. Fica desesperado. Projeta toda sua insegurança na mulher e acaba pirando o cabeção por achar que ela o traiu. Até o pequeno Ezequiel, filho do casal, paga o pato com essa loucura toda. No final das contas, num estilo trágico a la Shakespeare, todo mundo morre e ninguém fica feliz por causa de uma dúvida não resolvida. E essa dúvida não é se Capitu traiu ou não. É na verdade se Bentinho seria homem suficiente pra ela.
Alguns autores chegam a por em cheque a sexualidade de Bentinho. O que faz bastante sentido. Ele gosta tanto de Escobar que às vezes deixa escapar uns arroubos de afabilidade que condenam. Não que seja proibido um homem ser carinhoso com outro homem, mas Bentinho era muito reprimido para exibir um comportamento tão pós-moderno como esse.

Só se sabe de uma coisa… Nunca saberemos o que de fato aconteceu. Se ela traiu ou não, isso não é revelado.
Quem acertou mesmo foi a plateia da minha peça. O benefício da dúvida é a melhor opção para entender essa história.

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