No tempo em que eu queria ser escritora

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Na infância quis ser muita coisa: cantora, professora, bailarina, dramaturga, escritora, dançarina da Daniela Mercury (pasmem \o/), jornalista, advogada, publicitária, atriz…

Consegui ser as opções #2 e #8. E acho que já posso me chamar pretensiosamente de escritora.

Desde sempre faço isso. A diferença agora é que recebo honorários pelas palavras no papel. Ou melhor, no word, na web e em outras plataformas mais digitais. Mesmo assim não abandono o papel. Tenho sempre um bloquinho ou caderno por perto.

O lance é que fica na cabeça da gente que pra ser escritor tem que publicar um livro. Pensava assim antes. No fundo ainda guardo essa crença e dia desses publico pra poder ficar mais tranquila.

Mas, o fato (e ouvi isso de um professor) é que o simples pensamento já faz de mim o que quero ser. Então sou escritora. Não nos moldes convencionais, mais sou. Oras.

É claro que estou infinitamente longe de ser uma autora renomada ou qualquer coisa que já tenha sonhado lendo muito Machado de Assis. E acho que nem precisa tanto.

O que eu queria mesmo era viver que nem o Assis Brasil (um sábio e simpático escritor piauiense de 80 anos). O cara mora na periferia, sem pretensões capitalistas, vivendo dos dividendos das editoras e com uma produção intelectual impressionante.

Quem sabe quando eu fizer oitenta anos não esteja assim. Menos pela produção intelectual impressionante, eu acho. Modestamente quero muito chegar lá.

 

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No tempo em que eu colocava formigas para brigar

Sim.

Eu já fui uma inescrupulosa assassina de formigas indefesas.

Elas não tinham a mínima noção de que iriam morrer nas mãos do meu amigo Adriano e nas minhas.

Eram daquelas formigas grandes que tem em qualquer quintal, e, que no momento tô sem tempo de pesquisar o nome científico.

As minhas guerreiras eram as pretas. O Adriano ficava com as vermelhas. E não sei através de qual mecanismo conseguíamos com que as pobres formigas se jogassem no campo de batalha até que alguma delas morresse.

Muita crueldade. Na verdade, quem sabe fosse falta do que fazer infantil. Ou cabeça vazia mesmo.

Graças a Deus cresci. Parei com esse hábito degradante de assassinar animais não interessando se são formigas ou não.

Ok. Ainda mato formigas… Mas, só aquelas que insistem em me picar (sem trocadilhos, please). Minha sobrinha Myllena costuma dizer que mamãe passou açúcar nimim. Duvido muito devido aos últimos acontecimentos que não vem ao caso.

Enfim…

Só comecei essa história de formigas por que ontem salvei a vida de uma. Eu me regenerei e faço isso com vários outros animais: pequenas aranhas, joaninhas, formigas.. Geralmente quando estou lavando roupa e elas aparecem na pia e estão a ponto de se afogar.

Reparei que depois de colocá-la fora de perigo ela estava andando em círculos e sem rumo. Tudo bem que eu nem sei se ela tem senso de direção e devia ser de novo falta do que fazer, só que dessa vez adulta.

Olhei atentamente para a formiga e notei que ela parecia estar limpando as anteninhas. Fiquei mais sensibilizada ainda e troquei a formiga de lugar. Para meu alívio ela saiu andando normalmente.

Eu sei que você que me lê deve estar pensando “essa criatura pirou…”, mas também acho que se você leu outros textos daqui já deve ter se acostumado com minhas pirações.

Whatever…

Depois de toda essa conversa eu percebi que a gente é meio formiga de vez em quando, sabe?

Às vezes precisamos que alguém coloque uma folha pra gente subir e nos conduza ao outro lado do galho.

Eu preciso muito. Mas, nesse momento estou mais para condutora de formigas e também de pessoas.

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No tempo em que eu não entendia Dom Casmurro

A primeira vez que li Dom Casmurro tinha treze anos.

Eu já era feminista (acho que desde sempre) e sem nenhum fanatismo acreditei na culpa de Capitu. Contrariando todos os prognósticos e seguindo a lógica do senso comum.

Não era a primeira vez que eu ouvia falar do livro. Li sobre ele em outro livro – O Bom Ladrão de Fernando Sabino – e fiquei curiosíssima pra saber que tal enigma de Capitu era esse.

Li, e, a pedido de minha professora de Língua Portuguesa escrevi uma adaptação teatral da obra. #queousadia

A única exigência da professora foi que nessa peça acontecesse o julgamento de Capitu. Então segui essa linha e fiz a tal dramatização com direito a tribunal e tudo. Eu fui a advogada de acusação e os personagens principais foram convocados para depor.

O veredicto foi decidido pela plateia. Nas duas apresentações que fizemos, Capitu foi condenada em uma e absolvida em outra. Me indignei na época. Para mim ela era culpada e ponto.

Só hoje, milhares de anos depois, entendi que a nossa plateia estava coberta de razão. A dúvida é o melhor de Dom Casmurro. Para isso ele foi escrito. O grande Machado de Assis queria nos mostrar como a mente humana pode ser dúbia. Como Bentinho sofria de bipolaridade, antes mesmo do termo bipolaridade ser inventado.

Continuei lendo Dom Casmurro ao longo dos anos – definitivamente esse é o livro da minha vida – e o meu trabalho de conclusão de curso tratou indiretamente sobre ele. Nas minhas pesquisas descobri bastante coisa:

  • que Machado era muito amigo de José de Alencar assim como Escobar de Bentinho
  • que o casamento de Machado e Carolina foi muito feliz, mas eles não tiveram filhos
  • que a mulher de Alencar (Georgiana) era a Capitu em pessoa, tanto de corpo como de alma
  • que um dos filhos de Alencar tinha uma relação paterna com Machado e estreitou os laços com ele, sobretudo após a morte do pai

Essas informações biográficas só adicionam um elemento a mais na obra Machadiana. Nada foi provado e o DNA nem era usado, mas o fato é que Machado pode ter sido o Escobar na vida de Alencar.

Já Bentinho aparentemente é um lunático. Talvez não totalmente louco, mas com uma pertubação evidente.

Sigam meu raciocínio:

O cara perdeu o pai. A mãe não consegue cortar o cordão umbilical. Ele tem várias neuras e não confia no prórpio taco. Aí aparece “a mulher”. Capitu é areia demais pro caminhãozinho dele e ele sabe disso. Fica desesperado. Projeta toda sua insegurança na mulher e acaba pirando o cabeção por achar que ela o traiu. Até o pequeno Ezequiel, filho do casal, paga o pato com essa locura toda. No final das contas, num estilo trágico a la Shakespeare, todo mundo morre e ninguém fica feliz por causa de uma dúvida não resolvida. E essa dúvida não é se Capitu traiu ou não. É na verdade se Bentinho seria homem suficiente pra ela.

Alguns autores chegam a por em cheque a sexualidade de Bentinho. O que faz bastante sentido. Ele gosta tanto de Escobar que às vezes deixa escapar uns arroubos de afabilidade que condenam. Não que seja proibido um homem ser carinhoso com outro homem, mas Bentinho era muito reprimido para exibir um comportamento tão pós-moderno como esse.

Só se sabe de uma coisa… Nunca saberemos o que de fato aconteceu. Se ela traiu ou não, isso não é revelado.

Quem acertou mesmo foi a plateia da minha peça. O benefício da dúvida é a melhor opção para entender essa história.

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No tempo em que eu tinha cabelos cacheados

Meus cabelos nasceram bem cacheadinhos. Pareciam arame de caderno, sério mesmo.

No início eu não queria aceitar. Falava até em implante de cabelo liso nos meus ingênuos 03 anos. Minha mãe tinha um cabelo ultra liso e minha ideia era “colar” uma parte do cabelo dela no meu, com condicionador.

Esse plano furou e eu cresci prendendo meus cachinhos com elásticos, fivelas e muitas tranças.

Até que um belo dia descobri que dava pra soltar o cabelo e a partir de então meus cachos começaram a balançar por ai.

Foi uma época muito agradável que pode ser visualizada nas fotos abaixo:

Porém o mosquito da ocidentalização me mordeu e coloquei na cabeça “literalmente” que tinha de alisar meus fios.

Minha mãe – sempre ela -  avisou pra não fazer. Disse que eu ia me arrepender.

Eu argumentei que não. Que minha vida corrida não me permitia ter um cabelo tão não-prático quanto o meu. Com o liso seria diferente. Era só dar uma ajeitadinha e pronto. Eu não gastaria mais tanto tempo com escovas, cremes e afins.

No entanto, deu-se a tragédia.

Uma cabeleireira despreparada estragou a estrutura do fio. Ele ficou sem forma: nem liso, nem cacheado. Quase morri.

E o pior de tudo é que foi bem na semana da minha formatura. E eu fui a oradora da turma. Precisava de um cabelo arrasante pras solenidades.

Infelizmente não tive esse cabelo totalmente demais e passei o último ano tentando consertar as madeixas.

Consegui encontrar uma solução paleativa no momento. Coloquei tranças e deu pra esconder a raiz aparente que já estava brigando com o comprimento do cabelo.

Decidi que nesse 2012 vou continuar fazendo isso na esperança de que os cachos voltem.

Já me disseram que isso não vai acontecer e que posso esquecer do balanço dos cachinhos.

Enfim… Mesmo que ele não volte à forma original, creio que pelo menos ondulado ele volta a ser.

O que sei com toda a certeza é que desisti de procedimentos químicos de alisamento.

Chega! É perda de tempo, dinheiro e de originalidade.

Ai.. ai…

Que saudade dos meus cachinhos.

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No tempo em que eu ouvia CD na íntegra

Faz tempo.

Aquele botãozinho ‘shuflle’ e o download inventerado mudaram a minha maneira de ouvir música.

Pra mim é meio preocupante.

Ao tempo em que sou viciada no aleatório e também não passo um dia sem baixar nem que seja uma música, geralmente crio seleções muitíssimo variadas que tocam na minha playlist.

Tenho tentado voltar ao velhos hábitos até para conhecer mais dos artistas que gosto. Ouvir o CD na íntegra faz com que você não se identifique só com as chamadas ‘músicas’ de trabalho e possa falar com propriedade sobre aquilo que está ouvindo.

Esse lance de baixar aumenta as possibilidades, mas em contrapartida torna as pessoas consumidoras de música ‘de momento’. Eu pelo menos sou assim. Mesmo amaando old school songs. Adoro ouvir programas de FM que tocam sons do passado e depois de ouvir uma música interessante não hesito em baixar.

A internet também é fonte de inspiração para a criação das playlists. Novidades que estão bombando, bem como os clássicos repaginados.

Sinto saudade de quando sabia a sequência do CD de cor. Tudo bem que isso continua acontecendo com as playlists quando não uso o shuffle, mas sei lá, era uma sensação diferente. Sinto mais saudade ainda da sensação de devorar um CD e identificar as características do artista e ficar a par de questões que só quem ouve dessa maneira consegue entender.

Pode ser que eu não volte aos velhos hábitos. Já me acostumei tanto com o jeito 2.0 de curtir música que acho difícil retroceder.

Só sei que de vez em quando é bom ouvir um único artista. E sem cair na tentação de colocar no aleatório.

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